O primeiro grande impasse mágico.
Capítulo 3
— Reparo! — o professor, encarando o
objetivo em arquitetura gótica como a coisa mais banal e normal do mundo,
apontou sua varinha para as ondas logo abaixo. Eu sabia o que o feitiço iria
fazer (o nome era quase autoexplicativo para quem conhecia Latim ou
Português-Brasileiro). Aquilo me recordava lições e fiquei na expectativa,
tentando, pela admiração da destreza do bruxo, distanciar o nó que me
embrulhava o estômago daquele prenúncio de certeza sobre o meu futuro. No
entanto, menos mal. Nada aconteceu! Talvez fora um engano nós termos chegado
ali. Já me preparava, como podia, para voltar! (7)
E lá ia eu mais tranquilo e feliz. Mas...
mesmo que fosse fácil para mim usar o spongfy, e na minha imaginação pensava eu
ser aquela caminhada “apenas mais um desafio” (que poderia muito bem ser, dadas
às loucas e medonhas lições de Fig), o italiano não andava! Ficava estático, sozinho
a observar curioso aquela cena tal qual a mim quando era pego por paisagens
bonitas e colossais. Ignorei a hipótese que insistia em passar pela minha
cabeça, e falei como quem não quer nada: (6)
— Eleazar... Eu entendo que você queira
avançar, mas talvez seja este o fim da linha. Você mesmo não me fala que
existem mistérios que devem permanecer em sigilo, porque talvez não seja o
tempo de serem revelados? — Meu argumento foi convincente! Mas eu não precisava
de beber veritaserum para me delatar que estava mentindo... (4)
Meu tutor olhou para mim sorrindo como se
falasse “bela tentativa, aprendiz”. Depois, gastou mais alguns minutos
observando o quebrar das ondas na rocha. O diário ballet das águas não
causaria erosão àquele monte de pedras com o passar dos anos? Então como que a
construção ali se mantinha de pé?! Observando, a base já era menor do que o
corpo. Não obstante, ainda assim devia ser... (5)
—
Mágica. Ou o tempo das águas não está em sincronia ao tempo da rocha, ou algo que
vemos pode ser uma ilusão. Fico com a segunda hipótese. Li em um livro uma vez
que “coisas horríveis aconteceram com bruxos que mexeram com o tempo”. (3)
“Logo... os ‘tempos’ não poderiam
permanecer muito ‘tempo’ fora do real fluxo...”. Affff! Me peguei agora
pensando como um bruxo. “Pontos de aprendiz”, diria Fig. (2).
— Apolo, varinha em mãos. — Demorei por
querer, mas ele me esperou pegar o tal objeto. — Pense: qual feitiço poderá ser
útil agora? (2)
... Pelo menos, o cara não me tratou como
criança dando dicas. Meu tutor esperava de braços cruzados para trás, olhando
para mim, altivo e confiante. Ameacei fazer um gesto. (2)
— Volman... — Ele abaixou o queixo. — Também
chego a pensar nisso. Porém, observe: há um obstáculo à frente. — E, imitando
movimentos fluidos tipo de rios ou marés, já fitando as ondas, disse:— Undae
separo! (4)
Milagre! Assim como um velho relato
histórico, ele separou as ondas. E podíamos bisbilhotar nitidamente agora o
solo de areia. O caminho revelado não era muito fundo, e magicamente a vida
marinha e os peixes que ali estariam rumaram céleres para uma de suas
“paredes”, da esquerda ou da direita. Já sabia da tal proeza e certa vez o
velho me levou a uma praia para testar um feitiço parecido, que ali mesmo foi
replicado sem aquele ar distante de prova sem nexo algum. Pelo menos, a magia
cumpriu seu papel; mas... reafirmando a nossa incapacidade de prosseguir, não
havia nada lá. Que bom! (7)
— Wingardium leviosa poderia bem ser...
Mas as ondas exerceriam a força contrária nas horas de levitar as pedras. Considere-se
a salvo por não estarmos em Hogwarts ainda, pois os pontos que você teria ganho
ao bolar a estratégia para tentar me fazer desistir do desafio, facilmente
perderias agora. (4)
Murmurei bem baixinho, e fiquei com cara
de tacho vendo, lá embaixo, o caminho se fechar de novo. A magia pegava
emprestado a força das ondas para conseguir separá-las. Eu não entendia bem
como aquilo era feito, mas só sei que dava pra fazer. E sobre isso existe até
outro feitiço, unda separo, que produz o mesmo efeito em uma onda isolada por
um tempo até curto, mas não menos perceptível. Esse eu, pequeno como sou,
consigo usar com certa habilidade! Já o “undae”, plural de onda em Latim, para
mim é um pouco mais complexo... Mas isso é uma história para um outro dia.
Queria mesmo era sair dali e viver como alguém normal! A magia já começava a
perder aquele encanto de coisa meramente inofensiva e apartada da realidade. (9)
Ahh... a doce e enfadonha magia que nos
faz estacionar em um lugar, ver e/ou tentar compartilhar de suas belezas, e que
invisível e silenciosamente nos impede de voltar atrás, para o conforto de
nossa ignorância. Também lá permaneci, andando de um lado para o outro como
podia (claro, porque tinha de ficar de olho na ventania e no chão escorregadio
daquele local). E andava tentando me equilibrar, sempre do lado de Fig, com minhas
mãos distribuindo meu peso; era até teatral a cena. (6)
— É... se a planta fosse tipo... muito
mais baixa... poderia usar o glacius para congelar as águas e descermos, para
logo depois escalar a pedra. — Eleazar pensava em voz alta, enquanto eu já
previa a dificuldade da solução. Se bem que... poderia bem ser aquilo! Vai ver fosse
a solução. Por causa de o lugar ser escondido, de difícil acesso, e de a prova
exigir um grande controle de sentidos, como esportes favoritos do mundo bruxo. —
Talvez se... — Olhou rapidamente para mim sem querer, e percebi quando o velho
soltou um “não” em volume baixo. Leitura labial perfeita! — Não sei se
aqui podemos fazer isso, mas... é o que vamos descobrir. (8)
E foi então que, motivado, mas ainda com
receio e desconfiança, ele tirou do bolso um pergaminho cuidadosamente enrolado
e amarrado com um laço dourado. E as criações da nova realidade a qual estava
prestes a conhecer pareciam... não ter final. Estava diante de uma magifórmula!
O que achei que era lenda urbana... de fato existia. (4)
— Acredito que já falamos sobre isso em
lições passadas. É através de receitas como essa que podemos criar certos
objetos de forma mais rápida e “orgânica”, respeitando o ambiente ao redor,
claro. Manifestações do tipo não podem ser feitas em qualquer lugar, e os
locais que as aceitam são raros e sigilosos hoje em dia. — Fez questão de
explicar antes de abrir o papel. Zelando pela minha segurança, ele indicou com
o dedo um espaço afastado onde eu poderia sentar e admirar o show.
Pausadamente, e em alto e bom som (como se o universo pudesse escutá-lo), proferia:
(7)
— Ó High Lands, humildemente peço licença
para, neste local sagrado, evocar uma ponte de pedra talhada, sustentada por
pilares de granito e firmada sobre estas ruínas já existentes. A ponte criada terá
essas medidas: quatorze metros de extensão, três metros de largura e
sustentação suficiente para dois viajantes e seus pertences. A extremidade
esquerda se anexará a essa rocha, exatamente desde o centro desta borda,
construindo-se em altura de trinta e oito metros em relação ao solo. A
extremidade direita também será edificada sobre trinta e oito metros em relação
ao solo, anexando-se à rocha logo à frente deste abismo, a unir esses dois
caminhos naturais em um trajeto reto, firme e seguro. Rogo o tempo de uma
travessia lenta e tranquila, à velocidade de dois quilômetros por hora, para que
esta ponte talhada permaneça materializada neste cenário. Eu, Eleazar Fig, bruxo
italiano de sessenta e dois anos de idade cronológica humana, certifico-me e
assumo os riscos desta construção. (12)
Algo aconteceu! Como se eu fosse um
expectador qualquer, resolvi dar aquele voto de confiança para o velho e
admirava distante como em festas infantis. Mas, realmente... tão logo o mágico
acabou a sua apresentação, parecia mesmo que o próprio universo estava respondendo!
Barulhos e leves tremores vinham do nada. Olhei para trás por puro reflexo. Ainda
só estávamos nós dois ali. Que bom! (5)
Ele tornou a enrolar o pergaminho, o
amarrou novamente com o mesmo laço dourado, e como se fosse algo precioso, o
guardou no bolso. Meu tutor se mantinha incólume como em ocasiões passadas e,
equilibrando-se com maestria (e um certo ar “chato e autoritário” talvez),
parecia não ligar para os ventos que ali pareciam ficar cada vez mais fortes.
Não era nada tipo furacão ou terremoto, mas... foi como se fosse para mim. (5)
Fechei os olhos. Quando os reabri, a ponte
estava lá! E materializou-se perfeitamente: toda trabalhada em pedra,
ilusoriamente como extensão natural daquele ambiente, com as exatas medidas que
o cara falou na tal fórmula. Eu não sei como, mas rolou. (3)
— Parabéns Eleazar! Orgulho-me de ter o
senhor como professor. — Ok... Ainda que eu pudesse estar mentindo e
queria ir embora, tinha de dar o braço a torcer para o velho. Jamais achei que
aquilo fosse capaz. Como diriam os antigos, era difícil de acreditar. (3)
Ele tornou a encher os pulmões de ar, e eu
ajuntei meus “cacos de coragem” e fui ver a tal maravilha de perto. Fiquei
parado e estarrecido. Mas a sensação era boa. (2)
— Vamos... Eu sei que você está doido pra
fazer. Será bom para testar... — O italiano olhou para mim e sorriu. Tinha pego
uma pedrinha do cenário e a colocou gentilmente em minhas mãos. (3)
Admirado, não queria que aquela proeza
terminasse; era daquilo que estava falando, do sentimento bom e motivacional
que a mágica causava! Foi naquele pensamento de que éramos fortes e capazes que
lancei a pedra. Que, sem mais nem menos quando tocou na superfície lisa da
passagem, a desmaterializou sem tirar nem pôr. O show acabou... com a
pedra que caiu! Hora de voltar para casa... (5)
— Não! (1)
— Sim, Apolo Volman. — E ele me fitou nos
olhos como quem já suspeitasse o que poderia acontecer. — Parece que o universo
realizou o seu pedido! Vamos voltar. Talvez não seja a hora de atravessar. (3)
Fiquei... parado e sem reação. Reparo,
wingardium leviosa, glacius... Já íamos, sei lá, para a sétima tentativa. Mas,
quem normalmente desistiria era eu, não aquele bruxo hábil e esperto de nariz
aquilino e roupas espalhafatosas. Se ao menos fosse maior! Mas era pequeno
ainda para aquele cenário grandioso e tão fora de minha realidade. Por que eu?
(4)
Por que nós? Fig não falava que coisas
eram mistérios talvez porque não tinha chegado ainda o tempo de se revelarem?
E... além do mais, o universo não poderia escolher alguém mais “certo” para
fazer aquilo? Por que nós? (3)
— Accio pergaminho da ponte! — Não foi
difícil para mim evocar o dito rolo de papel. Graças à observação que tinha, apontei
a varinha justamente para o bolso sem botão onde o velho tinha guardado a tal
fórmula. E me diverti com aquilo, já que uma regra do feitiço era falar
exatamente o nome da coisa a ser evocada caso o usuário não visse o objeto no
momento. E o mais legal: atipicamente poderíamos dizê-lo em nosso próprio
idioma! Eu não sei como aquilo acontecia, mas acontecia. (6)
Trouxe a estratégia de volta, mas, olhando
do nada para meu tutor (que voltava com a cara boba de contemplação sem
fisionomia real), não desatei o laço. Porém, eu aproveitei que o feitiço
funcionou e bisbilhotei o miolo como se fosse uma luneta. E aí aquilo... como chamava
mesmo? Ah, magifórmula. Bem... não tinha nada lá. (4)
Só um rolo de papel velho, meio carcomido
pelo tempo, unicamente com fundo beje... Só aquilo, e nada mais. (2)
— Magifórmulas não são como feitiços
comuns. Pertencem às artes da transformação, com regras e pré-requisitos
próprios para serem materializadas. — Ihhh... lá vai. Ele iria iniciar mais uma
outra explicação, que, apesar de poder ser curta, sabia que ia sobrar pra mim
no final. Pois, pelo sim pelo não, eu também estava lá; fosse pela razão que
fosse. — O texto dos pergaminhos desaparece por completo assim que o acabamos
de ler. Isso ajuda ao sigilo mágico e ao equilíbrio do local, o que nos permite
ainda economizar papel. Vamos ver se você consegue reproduzi-la novamente aqui.
Como sei que bem observou, não necessitei de minha varinha, e falei em um
timbre de voz imponente e respeitoso. (8)
Quase nem acreditei... afff. Parece que,
realmente tinha chegado a minha vez... (1)
Um pouco mais confiante, por saber onde
estava pisando, andava de um lado para o outro, fingindo que não era comigo.
Não obstante, não foi difícil para o professor chamar nova atenção para si, e
devagar e pacientemente treinava a magifórmula. (3)
— Fig, — E nas entrelinhas de minha
expressão, lia-se o clamor de “por favor, dá pra de me tirar daqui?” —
por que no final tenho que falar ainda meu próprio nome, a minha origem, e
quantos anos eu tenho? Não faz sentido, minguem vai ouvir... (3)
— Tua voz? — Parou, tocou-me no ombro, e
soltou essa afirmação com um sorriso enigmático no rosto. Se eu não estava com
medo ainda... ele conseguiu... — A tua voz é importante para o mundo! Mesmo
que, como você mesmo acha, ela pareça meio arrastada e dissonante às vezes, o
universo quer ouvi-lo, com todas as qualidades, mas também as imperfeições, que
você tem. Antes de descobrimos a magia, somos humanos, ué. (5)
Agora ele falou bonito! Apesar do
sermãozinho e da lição de moral, deu a informação em um tom amistoso, e pude
mesmo sentir um ímpeto de coragem... Além do que também me punha curioso para
ver as minhas palavras sumirem da folha depois de pronunciadas. Pelo menos,
como afirmou o professor, eram as magias que necessitavam de intenção e
talento, já as tais receitas, apenas uma voz alta, firme e eloquente bastava.
(5)
— Ó
High Lands, humildemente peço licença para, neste local sagrado, evocar uma
ponte de pedra talhada, sustentada por pilares de granito e firmada sobre estas
ruínas já existentes. A ponte criada terá essas medidas: quatorze metros de
extensão, três metros de largura e sustentação suficiente para dois viajantes e
seus pertences. A extremidade esquerda se anexará a essa rocha, exatamente
desde o centro desta borda, construindo-se em altura de trinta e oito metros em
relação ao solo. A extremidade direita também será edificada sobre trinta e
oito metros em relação ao solo, anexando-se à rocha logo à frente deste abismo,
a unir esses dois caminhos naturais em um trajeto reto, firme e seguro. Rogo o
tempo de uma travessia lenta e tranquila, à velocidade de dois quilômetros por
hora, para que esta ponte talhada permaneça materializada neste cenário. Eu,
Apolo Volman, bruxo espanhol de dezesseis anos de idade cronológica humana,
certifico-me e assumo os riscos desta construção. (12)
Relaxando meus pensamentos, fechei os
olhos e... os reabri em seguida. E vieram os mesmos ventos e presságios de
antes, porém agora estava mais “calmo” (na medida do possível) e já sabia o que
poderia acontecer. Como em um passe de mágica, a construção estava lá. O show
tinha voltado! (4)
Por instinto e lembrando da tentativa
anterior, peguei outra pedrinha do cenário. Mas o italiano me deteve, falando:
(2)
— Pontos de aprendiz! A primeira
magifórmula, a gente nunca esquece... Contudo, se me permite... — E aproximou
da borda com a varinha. — Reparo! (2)
Bastou pronunciar mais uma vez, e
possíveis rachaduras ou partes ainda deslocadas da ponte reparam-se sozinhas.
Apolo suspeitava que isso acontecia lá embaixo, nas partes das vigas e arcos
que não conseguiam ver. Mas preferiu ficar na emoção de “não creio, não
creio! Mesmo pequeno assim eu consegui!” e admirou o resto da apresentação.
(4)
— Vamos, jovem? Essa maravilha tem tempo
para ficar aqui, não se esqueça. (1)
— Sim. Isso é... incrível! Depois de você,
Eleazar Fig. — Vendo que era capaz, tratava de não pensar, pelo menos durante a
curta travessia, sobre as coisas... ruins que poderiam acompanhar aqueles
momentos bons. E finalmente chegaram do outro lado. (3)
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