Uma casa. Mas quem viveu aqui?

 

Admito que, se tivéssemos mais tempo, pararia incontáveis vezes durante aquele reto trajeto de 14 metros. Já não era novidade para nós dois o meu gradativo medo, que crescia diretamente proporcional à minha vontade de ir embora dali, para nunca mais voltar. Mas, o estrago já tinha sido feito. Andando e pensando, bobamente respirava do ar puro, e na minha mais perfeita inocência, maravilhava-me com tudo como se fosse uma criança a descobrir o mundo. Será que os bruxos tinham algo para fazer fulano não pensar, agindo só no automático? (7)

     Sentimentos podem nos atrair tanto para caminhos bons quanto para ruins. E... talvez a pior das sensações eu senti justamente naquele instante: olhando para trás e não mais encontrando a ponte (que, claro, sabia que iria se desmaterializar). Foi desesperador! (3)

     — Apolo Volman... — Ihhh... o velho já ia me reposicionar. Mesmo porque, só nos restava seguir em frente. Estava claro para mim! — O que aconteceu, já não nos pertence mais. Acredito que evoluímos nessa jornada. Você e eu, juntos! (3)

     E em fracos remendos motivacionais como aquele, o italiano tocava em meu ombro, enquanto admirava as ruínas e os mistérios daquela construção. (2)

     Não demorou muito (na verdade, estava logo à frente), ficamos surpresos com um imponente mural incrustado na parede, abaixo do vitral que víamos desde a caverna. Pela excentricidade, ou pelo aspecto pitoresco da obra, Fig finalmente me soltou e sem pensar duas vezes já rumava para ver de perto a tal pintura. E eu fiquei zanzando por ali, na companhia dos jarros e artefatos humanos. Poderia me distrair treinando ocasionalmente a minha mira do feitiço básico. Sim, poderia. Mas não o fiz por dois motivos: já tinha antes praticado a artimanha para quebrar o “portal de gelo”; e ali, apesar de estarmos a sós, parecia ser uma residência familiar. Eu não queria sair por aí quebrando coisas como um delinquente! (9)

     Delinquente. Ha-ha! Deve ser por isso que “reparo” é tão útil no mundo bruxo. (1)

     — Veja isso Apolo. Parece que nosso anfitrião era um vidente. E, ao relacionar este excêntrico lugar escolhido para moradia com estas estátuas de leão nos pilares, penso que ele poderia ser um grifano... — Eleazar se mostrava orgulhoso e emocionado por aquela dedução lógica. — Se for, ele estudou na mesma escola para onde você vai, aprendiz. (4)

     — Grif... o quê? É tipo... Grifo, aquele animal mitológico? (1)

     Ele parou de examinar o mural, olhou para mim, e riu serenamente. Deixou um tempo para assimilação como qualquer bom e respeitoso professor faria, e depois falou: (2)

     — Sim! O animal real, metade águia e metade leão, que os trouxas creem apenas ser “mitológico”. Corvinal, Grifinória, Lufa-Lufa e Sonserina, as quatro casas de Hogwarts, possuem cada uma um animal não mágico como símbolo. — Ele parou de repente na voz não por ignorância, mas talvez porque estivesse escolhendo uma maneira de me falar algo sem soar infantil. Menos mal! Igual a dica que o velho não me passou anteriormente na ponte. — E qual criatura melhor representaria pessoas fortes, com grande orgulho, e uma coragem acima da média para não ter medo de viver aqui? (7)

     Não respondi. Também estávamos descontraídos em um “trabalho de campo”, não em uma “aula”. Novamente, como não podia sair mesmo dali, continuei zanzando meio sem rumo. Em um canto de terra qualquer, sentei e tirei os sapatos. Fui então sentir a grama, a vegetação rasteira que crescia onde um dia fora um hall de entrada; respirava do ar puro, reparando em cada detalhe humano que ali conviva com a natureza. (5)

     E então, em uma salinha circular como anexo à esquerda, algo me chamou a atenção. Os arcos e paredes que a mantinham ainda de pé, respondendo ao cenário, estavam em ruínas. Mas, imponente e banhada pela luz solar, erguia-se uma cinza e trabalhada estátua. Logicamente, do mesmo desconhecido anfitrião vidente. (4)

     — Devia ser um bruxo muito... orgulhoso. Professor, é o mesmo homem do mural? Não bastava só... esse mural da entrada? (2)

     Eleazar riu da dúvida também retórica do aprendiz. Assim como perspectivas entre as pessoas eram diferentes, o que trouxas enxergavam de um jeito, “agraciados pela magia” viam de outro. Isso fora mais um rápido ensinamento que Fig falou, mas Apolo não deu tanta atenção. Continuava rodeando a escultura, transpondo mentalmente o significado de “bruxo” para “agraciado pela magia”. O adolescente riu daquilo assim como para ele próprio soava agressivo e até pessoal a denominação “trouxa”. (6)

     — Gostei... Vou falar assim agora — disse baixinho, embora de propósito para que o professor ouvisse. (2)

     Definitivamente, não lhe interessava nem um pouco saber o nome do tal grifano. E... que alívio! Aquela obra monumental, cinzenta e de base cilíndrica parecia ser a pedra que faltava para o aviso ficar completo e bem evidenciado (como todo agraciado pela magia aprecia): “Daqui você não passa!” (4)

     — Curioso...! Aonde nos levará esse caminho...? — E, tomando a minha frente, ele já se atraía para outra passagenzinha na lateral como uma mariposa rodeia o fogo. Então... lá vamos nós outra vez. Tava demorando o cara chato achar algo... “curioso”. (4)

     Demorei, esperei um bom tempo ainda só admirando a silenciosa e calma natureza ao redor, e apenas depois resolvi seguir o italiano. (2)

     E a decoração continuava em quinquilharias humanas e jarros de diferentes tamanhos e cores. Ainda lembrava de meu pensamento de não me tornar um delinquente, do tipo que saía por aí quebrando coisas à toa. Mas... voltando meus olhos para a estátua e para o excêntrico esclarecimento sobre leões e tal, fui treinar mais um pouco a pontaria de meu feitiço básico. Mesmo que aquilo pudesse se voltar contra mim e bater ou ricochetear em algo que não devia, certamente não seria pior do que o mistério que ali poderia estar nos aguardando. Se algo ricocheteasse, despertasse um guardião do nada e ele me expulsasse daquele lugar, eu iria achar até bom! (8)

     — É mesmo... parece que é o fim da linha Apolo Volman. — Meu professor voltava enquanto eu estava até me divertindo já com aquela brincadeira. — Igual ao impasse que tivemos a pouco, parece que algo nos bloqueia. (3)

     Afff... Já suspeitava o que aconteceria: Eleazar Fig provavelmente andaria ao léu com cara de taxo, após o remorso de não ter conseguido “decifrar um enigma” (adicionado à notória percepção de que me arrastou para lá sem certeza de nossa segurança), e teria de descer de sua pose, dependendo de mim para... novamente conjurar a tal fórmula mágica e nos ausentarmos dali. O velho ainda caminhava em postura altiva, porém devagar e com as mãos no bolso. (6)

     E os papéis ali se invertiam. Eu me vi naquele italiano parado, frustrado, sem poder voltar atrás. (2)

     — Então... ok. Você conseguiu... Já que tamo aqui né... (1)

     Falei, expressando toda a minha raiva e falta de paciência com as reticências e o erro ortográfico da última frase. (2)

     — Professor, vai me falar que o senhor não viu isso... O cenário... parece que ele muda drasticamente a partir desse ponto. E... — E iria continuar em minhas dúvidas delatando um símbolo de “fogo entrelaçado”, que parecia muito com algo que já tinha visto. Mas... vi que já estava a fazer interjeições sem sentido igual a ele ao examinar o mural. Parei no exato minuto, mas... foi eficácia zero. Fig já tinha percebido. (5)

     A bendita parada que parecia não se encaixar ali era uma parede não muito grande no fundo de um pequeno corredor: a qual ele alegava ser composta apenas por pedras sólidas, mas que eu via como transparente, revelando colunas circulares sustentando algo. O chão era branco e... avançando mais um pouco a vista no sentido horizontal, um mosaico em geometrias triangulares e tons pastéis se destacava. Aquilo tudo poderia bem ser parte da inteira construção. Mas... era querer demais! Se não estava enganado, a grande rocha onde fora erguida aquela casa já estava dilapidada pelo tempo. Não tinha como ter mais anexos! (7)

     — Estou com você, bruxo aprendiz! O que quiser fazer... (1)

     Ah tá! ...ok! Só vamos logo! (1)

     Tão logo coloquei a mão sobre o curioso símbolo, algo nos tragou para dentro como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Tive certeza de que não arredamos nossos pés nem por um segundo, mas... ainda assim estávamos lá. Odiava essas surpresas. Mas, menos mal, pelo menos eu não senti um solavanco sequer. (4)

     — Não planejava vir aqui com você tão cedo. Mas... é bom para já ir se acostumando. Seja bem-vindo a Gringotts. O banco do mundo bruxo. (2)

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