Apolo Volman nas Terras Mágicas.

                                                                           Prólogo


     A vista de Londres, na Inglaterra, era linda aquela manhã. Sabia, com um certo receio ainda, que o que seria entendido por normal para mim estava prestes a mudar. A começar, teria de abandonar meu medo de altura e entrar em uma carruagem que voava comandada por Ernesto, nosso cocheiro, e por sabe-se mais o quê... pois rédeas indicavam que o tal veículo era puxado por animais, mas que estavam invisíveis para mim. Não sabia se eram cavalos, pássaros, ou qualquer outra espécie ainda desconhecida. Despedindo de minha normalidade e olhando vez ou outra para o vazio à frente, eu com certeza não queria saber do que se tratavam... (7)

     — Ah, estas coisas de trouxas sempre me emocionam... — Eleazar Fig, meu simpático e paciente tutor, falava com sua voz rouca e postura imponente de mago reconhecido pelo ministério. Tranquilo, sem varinha nas mãos, ele gesticulava bastante e parecia pressentir algo no ar com seu nariz aquilino, típicos traços de alguém de nacionalidade italiana. Os ventos que percorriam aquela parte de Londres faziam suas vestes azuis balançarem em orquestra, como se fossem parte dos tons matinais. Aquilo me transportava em devaneios, mas o professor gentilmente me trouxe de volta à realidade. — Novos ares nos esperam no dia de hoje. Preparado? ...Meu amigo Jorge também já deve estar chegando. (7)

     Tão logo ele acabou de falar aquilo, um vulto rápido se formou do nada como mágica, e, ganhando consistências mais físicas e visuais, um homem vestindo um casaco marrom apareceu de costas. Aquela técnica era chamada “aparatação”, e, por usar-se de tal meio, o visitante com certeza era um grande mago, interpretando as leis da magia naturalmente como se fosse o ar que se respirava. Contudo, o semblante e a postura confusos pareciam delatar que não tinha como certo o destino de chegada cristalizado na mente, e seus olhos estupefatos lembravam os meus a primeira vez em que fui apresentado à inusitada arte. Ficou mais tranquilo quando nos viu e se aproximou: (7)

     — Azarus Figneus, quanto tempo! Como está sua rotina de professor particular? ...Oh! É um prazer conhecê-lo, jovem Apolo Volman. (2)

     — Sempre em muitos estudos e trabalhos, avançando em desafios com sorte líquida. E teus estudos no Brasil, como vão? (2)

     Por conta dos afazeres, os dois amigos de infância tinham cada vez menos tempo para conversarem de boa sem maiores preocupações. Mesmo com comodidades próprias dos bruxos, os anos 1890 evocavam um algo curioso jamais visto, e o final do século XIX não seria tão claro igual o seu começo. Uma parte considerável daqueles que dedicavam suas vidas para estudar a magia e para manter saudável o equilíbrio das leis mágicas se colocavam já obcecados e aguardando sempre “o pior dos cenários”. E Professor Fig, por mais que era um homem sensato, de certa forma não abandonava a ideia alarmista. O brasileiro Jorge Orsic, que estudava a migração e os hábitos de criaturas mágicas, também compartilhava de tal parecer, porém conservando posicionamentos mais descontraídos e otimistas... Não era necessário mágica para se perceber a diferença, e Apolo se orgulhava daquelas “leituras silenciosas” que fazia das pessoas. (10)

     Mais uma ou outra palavrinha, e subiram à carruagem. Os novos ares sopravam ventos de mudança. Algumas, sim, seriam de fato boas. Outras... apenas... auspiciosas. (2)


     — Está preparado, jovem Apolo Volman? — Fig falou de forma pausada e tranquila, com seu nariz aquilino e uma comovente expressão de felicidade. Com certeza, estava alegre por três motivos bem específicos: particularmente orgulhava-se do trabalho feito até ali, caminho criteriosamente trilhado com muito estudo e sacrifício; rever Jorge após tanto tempo aquecia também o coração do professor; e, acima de tudo, vibrava por mim mesmo, pelos obstáculos superados e conhecimentos adquiridos. — Trouxe aqui comigo um pouco de suco de maracujá e algumas balas calmantes. É bom para essas ocasiões. (7)

     O paciente tutor me entregou uma pequena garrafa transparente, e aguardou até que eu bebesse metade do conteúdo. Uma última despedida dos ares londrinos, e o veículo alçou voo como se fosse qualquer avião normal. Não soube se era a destreza do cocheiro ou a curiosa magia daqueles alimentos, pois não senti um solavanco sequer. A viagem estava tranquila, e era linda a vista lá de cima! (5)

     — Você viu essas notícias Fig? Receio que tenha alguma relação com... (1)

     — ...Por Merlim! Miriam? Uma companheira fenomenal, surpreendo-me até hoje por ter me escolhido. Fico feliz que... — Eleazar tentou manter a mesma postura, mas a recém novidade o abalou. Aos 17 anos, uma vez concluídos os seus estudos com notas acima da média, participou de uma seleção para seguir carreira no ministério, focado no sonho de tornar o mundo trouxa um espaço mais habitável para a comunidade bruxa. Apesar dos exímios conhecimentos, lamentavelmente não conseguiu a vaga, mas suas idas e vindas na sede burocrática o fizeram conhecer o amigo brasileiro, o qual lhe apresentou àquela que viria a ser sua esposa, anos depois. Miriam Contarini, de família ítalo-francesa, unia costumes e culturas com naturalidade, trabalhando para diminuir episódios desagradáveis e preconceitos que vinham a partir de choques entre realidades opostas. Transitava com rigor e respeito por vários departamentos, e foi parte importante para defender a ideia de que nem todo saber deveria ser imediatamente partilhado, sobretudo quando envolviam forças cujo alcance ainda não era plenamente compreendido. Faziam-se já cinco anos... Longos e difíceis cinco anos desde que ela descobriu sobre a chamada “magia antiga”, e que compartilhava as novidades com pessoas seletas. Partiu misteriosamente. Deixando, ainda somente para alguns, seu legado silencioso. (16)

     — Uma bruxa e amiga exemplar, fora de série, diria eu! — Percebendo as memórias e preocupações do italiano, Orsic não sabia ao certo o que dizer. Talvez aquela não fora uma boa hora para evidenciar tais notícias, mas... não sabia também quando ele teria outra oportunidade. Apesar do peso da situação, o tempo era um santo remédio. (4)

     Acostumado àquela vida desde cedo, Eleazar Fig sentia-se calmo a observar nuvens desde um bom transporte mágico. Para ele, era como se viver no céu, e como se lhe fosse digno tocar o invisível. A carruagem mergulhava e subia no infinito difuso da paisagem, mas o amigo sabia que já era hora. Criteriosamente disse, em postura mais séria: (4)

     — Mantive isso comigo em absoluto sigilo, até de mim mesmo, desde que Miriam me confiou. — E, olhando-me nos olhos, ainda um pouco desconcertado, falou: — Parece que você é o elo que essa história busca, senhor Apolo Volman. (3)

     Hesitante, ele me entregou um pequeno compartimento em forma de cápsula, que tinha uma imagem estilizada de um fogo entrelaçado no meio. O material era todo revestido de azul escuro, e continha arestas e detalhes em um reluzente metal. O professor exclamou, voltando à sua curiosidade e humor habitual, que era prata de duende, singelo símbolo de paz e união entre distintos povos. Contudo, o tal minério somente emitiria luz caso tivesse contato direto com alguma fonte de magia, e ninguém ali tinha ainda lançado “lumus” ou qualquer feitiço parecido. (7)

     — Estranho... com vocês dizem? Curioso... — Meus dedos tocaram a superfície, e de repente algo começou a abrir. — Uma... chave? O que será isso, Eleazar? (2)

     — ...Por Merlim! Miriam? ...Você é mesmo fenomenal! Obrigado Jo... (1)

     Com todo cuidado, o italiano achou melhor fechar o compartimento e examinarmos depois com mais calma. Fechou, guardou no bolso, e a carruagem estremeceu em seguida. A viagem tranquila e sem turbulências pelo céu se rasgou num bramido que não pertencia a ave alguma. O pequeno e seguro transporte se partiu em dois... E os mesmos braços que se encontravam timidamente, foram forçados a dizer adeus. (5)

     — Vamos Apolo! Rápido! — Em um ato desmedido, porém corajoso e corriqueiro no mundo bruxo, Fig encontrou minhas mãos e... pulamos da carruagem em queda-livre. Não me deu tempo para pensar, e tive de aguentar o solavanco. Quando olhei para traz, mesmo com o professor tentando me manter para frente, vi de relance o que eram... os tais animais que puxavam a carruagem. Eram cavalos alados, com asas e pontas negras em estilo gótico. (6)

     Felizmente... éramos magos! Não o enxerguei, mas Ernesto devia ter se aparatado. Caíamos do outro lado, Fig já buscando desesperadamente algo nas vestes. (2)

     O que atacou a carruagem mergulhou em nossa direção. Não tínhamos muito tempo! (1)

     — Accio! (1)

    Seguramos a chave, que pela ventania foi arremessada da cápsula azulada. Mais do que um objeto trouxa para abrir portas, era também uma chave de portal! Aterrizamos no chão frio de uma caverna. Abatidos e cansados, porém... seguros. (3)


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