O limiar da caverna.

 

Capítulo 1

     — Chamava-me Azarus Figneus... — disse, com uma respiração fraca e pausada, após apressadamente se recuperar e olhar ao redor sem observar nada em específico. — Ah! Quase ia me esquecendo Apolo. Beba isto, vai se sentir melhor. (3)

     Aterrizaram às pressas em uma superfície fria e rochosa, mas o impacto foi amenizado pela chave de portal, que os manteve suspensos no ar, como se o próprio espaço retardasse a queda. O corpo do jovem aprendiz estava esticado e seus músculos doíam. O peso do mundo parecia imobilizá-lo. (4)

     Seus olhos requereram também um tempo a mais para abrir e perceberem melhor onde estavam. A seu ritmo, esticou os braços ainda trêmulos e com dores. Contudo, deteve-se. Via nos olhos do professor que era o amigo quem necessitava de maior ajuda. (3)

     — É bastante eficaz para curar feridas físicas, nós a chamamos de poção winggenweld. O nome pode parecer meio difícil de pronunciar. Mas... — E ele sorriu para mim. Sei que estava tentando não pensar muito no recente acontecimento. — É assim que a chamam. (3)

     O frasco apresentava um líquido verde-claro. Mas... aquela não foi a única novidade mágica que no momento presenciei. Assim que focalizei na esperançosa cor à frente, foi como se um novo ar invisível se expandisse desde o pequeno objeto. Fig também pareceu sentir, e por instinto olhamos ao redor. A singela vegetação da caverna, os filetes de água corrente que jorravam de três cantos espalhados, e inclusive um simpático esquilo que ali naquele refúgio veio nos receber... O tempo tinha parado! Estávamos, somente Eleazar e eu, imersos em uma inusitada cena congelada. Nem em todos os meus estudos... (7)

     — Curioso... Mesmo com magia... isso é impossível de acontecer. — Devagar e com extremo cuidado, ele ergueu o pescoço e agora fitava as nuvens lá de cima, a procura de qualquer movimento. E... foi normalmente aquilo que aconteceu! Não somente as fluidas cortinas de fumaça continuavam no seu tranquilo itinerário, como também um grupo de pássaros cruzava o céu como se desse boas-vindas aos recém-chegados bruxos. — Isso é, temos um feitiço que consegue retardar minimamente o ritmo de algo, mas não conheço nada parecido que... tenha esse alcance. (7)

     — A magia... é... incrível! — exclamei e... foi bom para mim ver, e inclusive perceber, a beleza silenciosa das artes mágicas. Como que uma coisa tão bela, que nos surpreendia positivamente com coisas que o mundo normal não conhecia, poderia se transformar, de uma hora para outra, em algo tão assustadoramente real... algo tão assustadoramente real e irreversível como a morte? — A magia é, deveras... vento e mudança. — E eu mesmo, quase sem querer, respondi minha pergunta retórica. Da mesma forma que ela surpreendia de forma positiva, existia ali sempre um outro lado da moeda. (7)

     Bebi do frasco (não tinha magicamente gosto de nada, mas realmente me senti melhor já nas primeiras gotas). Nos levantamos em seguida, e silenciosamente observamos mais atentos o ambiente a nossa volta. Eram muitas novidades, muitas coisas para se assimilar em um curto espaço de tempo, e... muitas perguntas ainda sem resposta (algumas das quais eu, igual ao começo de nossa inusitada viagem, não queria ser esclarecido). (5)

     Eu já podia andar e caminhar livremente em círculos, mas preferia permanecer mais quieto, “percorrendo” a caverna com os olhos e movimentos de meu pescoço. A situação agravava-se mais para Eleazar, pois, além de estar “preso” ali sem saber porquê, tinha de lidar com o recente episódio, o qual puxava também o acontecido de anos atrás. Aquela solidão rochosa ressignificava-se em muitas coisas... Com certeza não teria conseguido atravessar aquilo sozinho não fosse o professor. Admirava sua figura estoica e controlada diante das adversidades. (7)

     — Mais do que qualquer magia ou artefato mágico que alguém possa inventar, é bom ver que nada é 100%. E... bom não quer dizer “eufemismo”, mas sim, vem no sentido de “é uma certeza” — parado de costas à minha frente, falou contemplando o correr do tempo no exterior. — Mesmo em acontecimentos tristes e não tão agradáveis podemos encontrar algo precioso, necessário para nossas vidas em tal instante. Eu, como professor, gosto de ensinar. Apraz-me reforçar a ligação entre conhecimento e aluno. Porém, Apolo Volman... — E de repente virou para mim. Os meus pensamentos viajavam tranquilos como se ainda estivessem na carruagem, e as mãos de Fig representaram a chave do portal que de forma abrupta me fez cair de volta à realidade. — Há certas coisas que não se deve explicar, é melhor deixar que se sintam no momento. (10)

     Fui ao seu encontro, e foi bom abraçá-lo e demorar o tempo que julguei necessário na ação. As visões ainda me incomodavam, mas reabrindo meus olhos e olhando fixamente para o italiano, ousei falar: (3)

     — O que eram... aqueles animais...? (1)

     — Testrálios. — Ele foi curto e grosso, e sua única palavra adquiriu o mesmo ângulo agudo daquelas asas. — Apenas passamos a enxergá-los após presenciarmos a morte. (2)

     — Jorge... Jorge Orsic! — O impulso veio antes da fala, e timidamente pedi desculpas ao professor. Não queria parecer repetitivo, mas coisas tão belas e maravilhosas como a magia não deveriam se transformar em fatos e visões nocivas, dessas que acontecem do nada e não nos dão tempo nem para respirar. Test... inspirei. O esquisito nome parecia, em Português-Brasileiro, provocar como um “teste” aqueles que os ousavam enxergar. (5)

     — Apolo, bruxo aprendiz Apolo Volman... — Eleazar Fig mudou completamente sua expressão para um semblante totalmente sério. Dilatadas íris azul-escuro sem sequer uma lágrima, expressões faciais e corporais contidas, e lábios mais retos e secos abandonando completamente qualquer sorriso ou atitude amigável. Me encarava de forma veemente como nunca antes vista. Foi difícil olhar. — És parte de um novo mundo agora. Muito daquilo que tens por verdade se diluirá, e muito daquilo que achavas impossível... verás que era apenas uma questão de perspectiva. Não estou dizendo para não ter sentimentos e anular quem tu és. Tua luz é importante para o mundo! Mas... — Parou e, um segundo depois, disse-me uma verdade que já sabia, embora ainda precisasse ser reafirmada por mim: — Você é um bruxo, Apolo Volman. Viva esta nova realidade, com todos os prós e os contras que que tem a oferecer. (11)

     Hey! ...Eu não pedi para tudo aquilo acontecer! Quem era o professor para me abraçar e logo depois me tirar o chão daquela maneira? Talvez teria algo, alguma outra poção ou parafernália qualquer, que permitisse ao usuário esquecer de toda aquela insanidade e ter a sua vida de volta. Escola, academia, encontros corriqueiros com amigos... e apenas ler cenários e coisas que só aconteciam em livros ou filmes... que eram legais porque a gente sabia que só aconteciam em livros e filmes! Quem era Eleazar Fig, afinal? (6)

     Distanciei do italiano e... minha intenção era de ir embora. Se bem que... por que não? Isso é... eu estava lá, em algum lugar mágico ou trouxa qualquer. E... apesar de o cenário me amedrontar um pouco, pelo seu aspecto grandioso, aberto, cheio de precipícios e lugar para alguém normal facilmente derrapar e tal... eu era um bruxo. Sabia de alguns feitiços... (4)

     — Ap...! — ouvi uma ríspida voz atrás de mim assim que cruzei a passagem. À frente, deparava com o primeiro grande obstáculo, pois, ainda que o piso batido de terra fosse largo, um passo em falso para o lado e... — Ok. Expressei-me mal. Desculpe. (3)

     Claro! Dada a minha brilhante destreza, Fig me alcançou facilmente. Certamente, foi bom para ele ver o meu lado e tentar contornar a situação. Deveria continuar nas desculpas por mais uma ou duas frases, e depois ver que seria melhor me permitir a volta para minha rotina normal de trouxa. Mas... não. Tão logo olhamos para trás, algo novo e inexplicável aconteceu: o esquilo tinha se movido! Curiosamente, o tempo interno voltou assim que de lá nos ausentamos. E... já suspeitava... era magia. Precisava acontecer... (6)


     Ao longe, uma construção em estilo gótico parecia desafiar a gravidade sobre rochas dilapidadas. Devia estar em ruínas há muito tempo; porém, os vitrais que ainda restavam reconduziam vivos as luzes da manhã, como se chamassem visitantes e pessoas curiosas a averiguar. (4)  

     — Ahn... Quem no mundo mágico podia achar ok viver em um lugar desse? (1)

     — Alguém que guardasse algo importante, talvez — o professor falou com os olhos voltados também à arquitetura incrustada. Riu de minha pergunta descontraída, e depois continuou: — Terra e estruturas sólidas podem ser bastante úteis para se esconder magia. Acho que quem encantou a chave do portal queria que aqui chegássemos. Se estiver tudo bem para você explorar... Após nossa incursão, saímos e te levo para casa. Prometo. (5)

     Fig já me conhecia o bastante para saber que eu, por mais que almejasse escapar de todo aquele labirinto para viver bem e tranquilo como qualquer outra pessoa normal, estava lentamente me pondo curioso em relação a tudo aquilo. (3)

     Além da atípica construção à frente, todo o lugar brindava os nossos olhares com uma panorâmica paisagem deslumbrante. Nós fomos parar nas Terras Altas da Escócia, mais especificamente em um cenário aberto e montanhoso, edificado pela natureza sobre um imponente tapete azul orquestrado por brisas marinhas e gaivotas que planavam. Por instinto e sem pensar direito, sentei para melhor admirar a vista... e também para não cair, pois já desequilibrava com os ventos fortes. Fig me acompanhou naquela emoção infantil, e novamente gastamos o tempo que nos fora necessário. (7)

     — Miriam e Jorge! Obrigado por nos proporcionar isso. — Contemplávamos sozinhos o horizonte perdido e imaginávamos, talvez, silenciosas sequências às nossas maneiras. Virei meu pescoço e olhei de relance Fig timidamente chorar. Mas, sendo ele o professor, fazia das lágrimas resiliência, e gritou feliz o nome da esposa e do amigo. Após, levantou e me estendeu a mão. — Vamos lá Apolo Volman? Avançando em desafios com sorte líquida, sempre. (6)

     Sorri para ele, corajosamente estiquei o braço, e nos reposicionamos no caminho. O que víamos agora à frente era uma única passagem com espaçadas gramas em verde-claro e alguns objetos feitos por humanos. Do lado direito, ampliava-se a cavernosa parede, que parecia bem sólida e serviria de apoio caso algo desse errado. Mas... do lado esquerdo via-se um precipício, com o mar forte a balançar ondas. Quem em sã consciência poderia querer viver ali? Certamente o bruxo teria um bom motivo. Pelo menos ele não devia se preocupar com vizinhos... (7)

     — Eleazar... — Parei de uma hora para a outra, mas sem dispensar a ajuda do zeloso professor. Era mais como... uma dúvida. Por que... dentre tantas pessoas...? — A vista é linda, e nunca podia imaginar que a viagem para Londres fosse nos levar até aqui. Mas... pode ir explorar tuas ruínas. Vou ficar aqui no conforto da gruta enquanto isso. Só antes você conjurar um “protego maxima” e acho que já está ok... (5)

     Soltei-me completamente de suas mãos e meus olhos tornaram a mirar a boa segurança daquele refúgio. (2)

     — Apolo, só um porém... — Naquele instante, foi como se ele tivesse lançado “accio” de novo. O bruxo não enfeitiçou meu corpo para me fazer retornar ali, e nem poderia, visto que eu não tinha me deslocado ainda de lá. Mas, o final de sua frase soava como um sermão. Virei em seguida. — Pontos de aprendiz! Contudo, o feitiço mais correto seria o “protego totalum”. Teu raciocínio está certo, porém a área que você queria proteger não é tão grande assim. — O italiano ria e novamente se orgulhava de ser parte importante em meu aprendizado. Retomou, depois, sua postura mais séria: — Você também está aqui por um motivo, caso contrário, não teria conseguido abrir a cápsula daquela forma. Receio que não seja a melhor opção voltar e consequentemente abandonar isso por agora. Se minhas suposições estiverem corretas... (10)

     Pacientemente retornando a me ajudar, nós concluímos o curto corredor com sucesso! Aguardando, porém, tal proeza, o solo elevava-se em um pequeno degrau de calcário e naturalmente harmônico ao ambiente. Meu tutor e amigo escalou primeiro, e logo depois se agachou para pegar as minhas mãos. Não o deixei esperando muito tempo e saí de meu lugar comum (do qual era o próprio bruxo quem gentilmente estava me empurrando). (5)

     Visualizamos um lugar fechado. Alto, porém não tanto como a gruta onde estávamos. Ainda em comparação, era fechado no topo, e... algo se escondia virando à esquerda. (2)

     Avançando um pouco mais a vista e olhando livremente ao redor, vegetação rasteira e ares frescos de humidade preenchiam o espaço. Já neste início, outro grande e silencioso obstáculo: tudo que sobe, tinha que descer... Sem pedir licença, o solo desnivelava-se em um novo piso mais baixo do que o nível da antiga caverna. Lógico que minha sensação foi sair correndo (como podia, é claro) dali. Seria um esforço normal para qualquer outra pessoa normal; mas, para mim, o “buraco” me causava vertigens. (6)

     — Spongfy. — Percebendo minhas preocupações, Fig apontou sua varinha para o solo. Nada ali se transformou, porém uma camada roxa e esponjosa cobriu a pequena área como tampa. A magia era conhecida, inclusive a usei muito em nossas lições. Mas presenciando ali, como parte de uma aventura real... aquilo me recordava a infância. (4)

     Carinhosamente olhei para o professor, e ele me sorriu de volta, guardando a varinha entre suas vestes. Agradecendo com o olhar, senti-me mais corajoso e... de certo, poderia dar uma corridinha e pular, pois o piso iria amortecer minha queda. Mas, não. O que fiz foi engatinhar e tocar o chão de forma mais leve e comedida. No entanto, não por menos estava lá. Porém, seria cada vez mais difícil agora voltar atrás. (5)

     A esponja se diluiu no ar tão logo me coloquei novamente em pé. Eleazar Fig desceu logo depois, com destreza invejável para a idade. (2)

     Respondendo à curiosidade e ao cortante ar gelado que lá parecia se amplificar, encarei a visão adiante. O antigo e maciço paredão montanhoso dava lugar a uma contemplativa e curiosa varanda aberta, decorada por pilastras circulares que conectavam o chão ao teto, protegida por uma mureta de pedra entalhada com singelos símbolos. Não obstante, como todo o lugar, a arquitetura era irregular e já estava em ruínas. Desconhecíamos há quanto tempo o local se conservava daquele jeito, mas com certeza o cenário podia estar há anos em nossa espera graças à magia. (7)

     — Curioso... — O italiano roubou as palavras de minha boca. Era costume ou tradição entre os bruxos falar “curioso” sempre que algo os surpreendesse? — Devemos estar em uma altitude elevada, mas aqui não parece fazer frio o suficiente para... Curioso... (3)

     Minha atenção se concentrava à nova panorâmica entrecortada pelas pilastras. Porém, ainda observava de longe e, talvez pelo vento externo ou o meu próprio equilíbrio, fiquei com medo de me aproximar. Novamente, gastei o tempo que me fora necessário naquele impasse, tomei coragem, e admirei de novo a vista, examinando os entalhes como se fosse capaz de identificar algo. Entre uma cambaleada e outra, enxerguei Eleazar e, como aluno aplicado, eu realmente toquei no gelo que ali estava como porta a bloquear uma passagem feita em arco. (7)

     Minhas mãos poderiam, ali mesmo, congelar-se por mágica. Por reflexo, afastei-me. (1)

     — Não há com o que se preocupar. Isso prova que... este lugar permanece intocado há tempos. Bem, hora de praticar: varinha em mãos... (2)

     Aquela lei da magia me maravilhava todas as vezes. Aprendizes tendiam a internalizar o “feitiço básico” com o tempo e já nas primeiras lições o lançavam como algo natural, evitando repetições que só gastariam tempo. (3)

     Desconheço, de fato, a motivação que me fez, naquele momento, quebrar a parede. Eu suspeitava que não tinha mais volta. Eleazar Fig sorria timidamente. A dúvida que eu ainda persistia em ter, era uma certeza para ele... (3)


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