Isso é... magia!?

                                                                     Capítulo 2

     Duas coisas: primeiro, Eleazar Fig escorregou por instinto pelo pequeno amontado de terra que se escondia atrás da porta congelada; e, segundo, talvez uma motivação mágica ou invisível o fizera executar a ação. Eu não sei... cosas bobas de magos tolos... (3)

     — Vamos Apolo? — Nem percebi quando o italiano me chamou. Era muita coisa para se digerir em pouco tempo. Não sei se persistia ainda em retornar, contando, claro, apenas comigo mesmo e com a varinha de treinamento; talvez fosse melhor distanciar de minha mente a curiosidade juvenil em explorar, até porque já podia prever consequências bizarras do mundo da magia sem qualquer lógica; fiquei sobremaneira espantado ao ver que ansiava por voltar à escola como estudante normal, o que tão assustadoramente me pegou de surpresa; ... Sentia frio, pensava, estancava-me como petrificus totalus. Porém, após muita paciência do professor, resolvi dar-lhe um voto de confiança. (8)

     Desci, e Fig me ajudou a levantar. (1)

     Caminhávamos agora por um curto corredor aberto e, em respeito ao colossal cenário, esculpido pela natureza. Ajudando na sensação de vertigem, o mar não parava de balançar as ondas com os ventos que sopravam nas Terras Altas. Continuava na técnica de olhar o mínimo possível para o chão firme e para a vegetação rasteira horizontal, mas, como era novidade e o cenário não era “de passar batido”, vez ou outra me pegava observando o paredão rochoso da esquerda. (6)

     Naquele curto corredor, os objetos humanos se tornavam mais frequentes, como um prenúncio silencioso de que nos aproximávamos da misteriosa construção. A mim não me pareciam artefatos encantados... descansavam pelo cenário como jarros de diferentes tamanhos e cores. Eu poderia então... treinar minha mira de feitiço básico para me relaxar, uma vez que o responsável por mim parecia ter me esquecido frente à surreal vista. (5)

     — Fig! Eleazar Fig! — A distância entre nós era curta, mas a aflição me fez falar mais alto e de forma mais direta e objetiva. — Por que eu? Eu... quero uma chave de portal já! Não pedi pra isso... (3)   

     O bruxo deteve o passo, ergueu o olhar a contemplar uma rocha que, presa à parede, criava um natural teto de sombra sobre uma curta área. Em seguida, voltou, lento e sereno. Podia me abraçar como bom e respeitoso amigo. Contudo, sentou no chão frio as lado de uma pedra qualquer. Tateando o paredão de suporte, fiz o mesmo. (4)

     — Quisera tivéssemos todas as respostas. Mas... nem mesmo com magia as podemos ter. Tua condição, Apolo Volman, de ataxia muscular, não diminui quem és. O quadro é este: desde o nascimento, as suas mitocôndrias respiram fora do compasso comum. Mas, você, como qualquer ser vivente e pensante, pinta essa tela com infinitas possibilidades. Lembro-me que quando te conheci, jovem mexicano. Apesar de toda a dificuldade, você persistia em aprender idiomas. Ainda que possa parecer um conhecimento estranho e, de certa forma, inútil para a idade e seu contexto de vida particular, isso requer uma vontade e força admiráveis. E, para mim, o peso das palavras pode ser mais árduo de se carregar do que qualquer halter de academia. Perdoe-me a repetição, mas, nem mesmo com magia podemos ter todas as respostas. E isso é até auspicioso e bom. Faz com que a curiosidade nos mova! Então, vamos lá, Apolo Volman?! (11)

     Como o esperado... era difícil não me emocionar, e, de certa forma, eu precisava ouvir o “sermão educado” do velho italiano naquele momento. Ele esticou o braço, e seguimos a trilha rumo à tal e bendita construção desconhecida. (3)

     Mas... não só naquele momento, pensava silenciosamente enquanto andava. Tinha de ouvir as palavras do professor no momento, não era exclusividade daquele contexto em específico. Como toda pessoa normal faria, eu anulava as partes ruins da história e tentava viver como se as tais adversidades não fossem minhas. Mas... mortais só varrem a poeira para debaixo do tapete! Ainda que tenhamos magia, não somos Deuses para decidir o que nos cabe ou não. E isso é... triste. Mas... é o que tem pra hoje... (6)

     Finalmente avançamos mais um pouco! Passada a curta área sombreada, o chão batido de terra clara já dava lugar a ladrilhos pétreos de arquiteturas mais humanas e uniformes. Uma ligeira sensação de segurança me tomou ao sentir os meus passos mais firmes; não fosse olhar para o horizonte e acompanhar uma gaivota que avançava em tranquilo voo o vasto cenário, a inusitada viagem não poderia estar melhor... Sem tirar nem pôr... (5)

     Atrás de nós, do lado direito, outra parede alta convidava-nos a escalar. Eleazar subiu primeiro, e depois me ajudou a finalizar mais aquela façanha. Novamente, estávamos em um corredor, com passagens abertas em ambos os lados. Meu tutor, claro, desejava seguir adiante, rumo ao desconhecido e de não o que mais à frente. Não obstante, a fim de tentar relaxar e... adiar o inevitável... parei e optei por percorrer o caminho inverso. (5)

     E foi bom para mim sentir aquele novo ar puro e o gosto de liberdade! Talvez como uma silenciosa lição, meu tutor explorador não me seguiu e me deixou livre para agir e pensar como quisesse e, em atitude um tanto quanto boba, inocente e infantil, brincar de imaginar o que mais poderia existir no cenário. (4)

       — Como...? — Dois pequenos aros de ferro estavam meio que enferrujados, presos em duas pequenas pilastras quadradas com símbolos esculpidos. Atravessava então uma passagem aberta, onde provavelmente existiria uma grande porta. Cansava-me o fato de tudo na magia ser, ou apenas parecer, grandioso e coisa de outro mundo... Poderia ser porque não estávamos habituados com aquela bizarrice de “nem tudo é o que parece ser”. Mas, com toda certeza nos tempos vívidos de outrora, o cenário seria a coisa mais normal do mundo e não seria nada além de outra varandinha qualquer. Admirei um arbusto que se apoiava sobre uma firme rocha, e minha astuta observação me fez observar um singelo baú de madeira escura que descansava solitariamente ali. Parecia estar esperando alguém, pois, tateando a parede, eu me surpreendi pelo fato de o compartimento abrir sem chave ou mecanismo qualquer. Demorei mais um tempo contemplando o nada, e depois parti ao encontro de Fig. Tínhamos muito o que percorrer ainda... (12)

     Menos mal! O caminho para o objetivo era reto e sem maiores desníveis. Após a ponte, que era a tal rocha que fazia sombra à curta área logo abaixo, fomos brindados com uma vista ampla, que se abria em leque conforme avançávamos. Não existiam mais paredes nem apoios na esquerda e muito menos na direita, o que contribuía para aumentar a força dos ventos e a sensação de... frio na barriga, uma intensa turbulência que parecia não ter chão para aterrizar! Engoli um seco. A visão em si era linda e esperançosa, mas o contexto me petrificou. Lembrei então do suco de maracujá, e tomei o resto. Eleazar, no entanto, não voltou para me buscar. Me senti deslocado, e sobretudo frustrado. (8)

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