É... um banco, ou mais uma caverna?

 

Capítulo 5

     Assim que entramos, a paisagem aberta e os ares altos da Escócia desapareceram! E... a pior verdade era aquela: tudo era real e palpável ali; não era nada ilusão. (2)

     Tateava bobamente a parede sólida de pedras buscando o botão de fazer tudo sumir, mas o desencontrado italiano já se direcionava para o lado oposto, em completa pose de alguém 100% no controle da situação e que sabia exatamente o que foi fazer ali. (3)

     — Professor, cuidado! Você vai tropeçar nesse balcão. — Não, ele não iria... Mesmo porque aquilo era totalmente visível para nós; e como disse, o velho sabia exatamente o que estava fazendo. Mas foi engraçado a ironia pra mim. Lá vamos nós de novo...! (3)

     — Olá. Desculpe-me interromper vosso sono, senhor Duende. — Ele parou à frente do móvel, e foi então que observei uma figura pequena tirando um cochilo sobre um livro aberto. Deveria ser um atendente do tal lugar. — Somos os senhores Eleazar Fig e Apolo Volman. Poderia nos ajudar? (4)

     Realmente, o balcão era um tanto desproporcional ao tamanho do trabalhador. Como um bobo alegre achando graça em tudo, meu tutor esperou a criatura descer e se recompor. Naquela hora, meus olhos e meu pescoço já tinham percorrido boa parte daquela pequena sala de atendimento, e não tinha nada mais interessante pra ver, ou que me motivasse a perguntar “o que seria aquilo?”. Mas... como eu estava trancado lá, reparei no funcionário. (5)

     Seus tufos de cabelo grisalho poderiam sugerir que fosse velho, e as orelhas pontudas batiam perfeitamente com a descrição fisionômica desses seres fantásticos. Se bem que... nas historinhas infantis eles pareciam mais amigáveis, porque a gente não os imaginaria com dentes afiados como navalha e unhas grandes como se implorassem com urgência por cuidados. Seus olhos também, de fato não eram comuns, e um preto escuro confundia íris com cristalino. Tudo isso, ligado ao atípico corpo, parecia distanciar qualquer versão amigável. (7)

     — Perdoe-me a descompostura anterior. Estava distraído porque poucas pessoas vêm aqui. Esta é a entrada dos fundos de nosso banco; a construímos mais afastada e seleta a fim de maior privacidade de nossos clientes. — Aquele ser parecia se destacar dos demais de sua espécie, pois era “falante” e, a julgar pelas expressões de surpresa e admiração do professor, ele via por detrás daqueles olhos pretos certa simpatia. — Posso ver a chave, por favor? (6)

     Captei na hora o que poderia ser. Ah, os adoráveis bruxos e suas quinquilharias. Talvez fosse só entregar o treco do portal para José que o problema enfim deixaria de ser meu! ...Ok Apolo, mas quem era José? Ora, aquela simpática entidade, é claro! Pois dada a medonha fisionomia do cara, escolho um nome simples e comum na minha terra para chamá-lo, conservando assim as imagens que crescemos imaginando na infância. Feito isso, eu retornaria para o conforto de meu lar, enquanto eles iriam explorar sei lá o quê. (6)

     Eleazar Fig tirou o compartimento das vestes e reabria agora como se ali não existisse mais trava mágica de segurança. O curioso artefato que nos trouxera lá era a permissão para continuar viagem: destrancaria o cofre 12, nas profundezas do banco. Quanto a mim, eu apenas observei, guardando a cena como se fosse uma despedida. Mas... por mais que ficasse na expectativa de “pronto! Agora vou embora de vez”, aquela cena não somente parecia requerer veteranos agraciados pela magia. Como dizem, alegria dura pouco. (6)

     — Reconhecemos que o transporte é atípico e chega a ser assustador à primeira vista. Disponibilizamos aqui ao lado sucos de maracujá e balas calmantes para quem os desejar. — E continuava sorrindo, sempre em simpatia. — Se puderem me acompanhar... (3)

     O trabalhador foi o primeiro a se dirigir até o objetivo, uma espécie de carro pequeno com lataria toda aberta e um grande farol circular com um brilho cegante e forte na frente. Suas cores eram escuras, em tons de marrom a preto, e a própria estrutura em barras de cobre e metal faria a “segurança” dos usuários. Pelo menos, o veículo não voava, e andava sobre trilhos que rezei para estarem bem fixos, pois não enxergava chão sobre eles. Atrás do farol havia um assento destinado ao maquinista ou operador da máquina, e ao lado via-se mais dois assentos lado a lado, o que dava a entender que caberiam até cinco pessoas no transporte. (8)

     Eleazar me deixou tranquilo para ir no meu tempo (embora essa espera precisasse ser rápida, pois já não estávamos mais só nos dois nas High Lands). Então..., enquanto o italiano caminhava, parecendo já ter andado na tal geringonça anteriormente e novamente achando tudo a coisa mais normal do mundo, eu olhava para a cristaleira ao lado com as pastilhas e os sucos calmantes. Fui até lá e pequei tudo o que minhas mãos e meus bolsos puderam aguentar! ...Passeios e situações como aquela fariam agora parte da rotina... (6)

     O duende riu entre os lábios, e meu bruxo professor estendeu a mão para me ajudar a subir no carro. Havia uma possibilidade de aquilo que peguei não fazer o mesmo efeito dos recursos que Fig me passou lá em Londres, mas confiava em meu tutor. E, ainda mais, o que podia acontecer? Já estava ali. (4)

     Tomei do primeiro frasco admirando a paisagem, que mudava drasticamente de uma simples saleta de banco para uma densa vista cavernosa. ...Que bom! Era mesmo suco de maracujá. Incrementei a estratégia com uma bala calmante, de um gosto açucarado e doce como baunilha, e seguimos viagem. (4)

     — A descida até a câmara 12 pode ser concluída em aproximadamente uma hora na velocidade convencional, ou, caso queiram admirar melhor a paisagem, poderemos viajar em um ritmo mais lento e chegaremos ao destino em uma hora e quarenta e cinco minutos. Qual opção os senhores desejam? (4)

     — Ritmo mais lento, por favor! — Nem percebi quando falei, mas foi aquela a minha interação. Pela primeira vez desde que fui empurrado para este mundo da magia, alguém vem e me oferece a opção de ir mais devagar. Gostei desse cara! (3)

     José continuou no mesmo sorriso simpático de sempre, mas antes olhou pra mim com os seus medonhos olhos pretos arregalados e ergueu as sobrancelhas, como se pensasse “o rapaz aqui deve ter personalidade. Para falar por seu mestre...”. Eleazar Fig, o qual não era meu ‘mestre’ todo o tempo e me deixava tomar minhas próprias escolhas, riu também, ainda sob a mesma expressão “bobo alegre”. Seguimos assim. (5)

     A paisagem... aconteceu o que já era esperado. Agora, mudou completamente de vez! Se aquela era a velocidade mais lenta, queria agora mudar a opção. Ritmo 2x mais lento, por favor! (3)

     Olhava para o ambiente, e do ambiente para... Fig. Sabia que de nada adiantaria, mas... querendo ou não, o velho era o agraciado pela magia mais perto de mim naquela ocasião. Se bem que... José (ou, sabe-se lá qual seja seu nome mágico) estava também presente e do meu lado. Observar aquela criatura pequena em meio à imensidão me trouxe certa paz. (4)

     — Fico maravilhado sempre que visito esse complexo. — Eleazar Fig resolveu falar para quebrar o silêncio. ... Não!... Sério que ele estava maravilhado? Nem dava pra notar. — Por favor, quantos cofres existem em Gringotts? (3)

     — O número certo não tenho como afirmar... — E josé pilotava, sem tirar os olhos do percurso, mas com o mesmo sorriso jocoso de sempre. Aparentemente, executava aquela rotina todos os dias; e então se dispunha a falar mais sossegado com os clientes. — Mas ele me parece ora aumentar e ora diminuir de acordo com a demanda. Fenômeno curioso, já diriam vocês bruxos maiores. Em Hogwarts, para onde presumo que vão, há feitiços parecidos. (6) 

     Ah, aquilo eu sabia! O duende se referia ao tal do feitiço sem fundo... ou magia ilusória para guardar coisas... comprimir coisas... ou algo assim. Lembro de ter visto a proeza uma ou duas vezes em treinamento (a primeira na casa de meu tutor, e a segunda apenas para uma rápida demonstração, em algum planalto qualquer ao ar livre eu acho). Era simples de se executar: bastava que o bruxo ficasse em uma distância segura do objeto encantado, com a varinha fixamente apontada para o centro. Proferir duas palavras mágicas... e voilá, a coisa ganhava mais espaço internamente. (7)

     — Incrível a precisão e aptidão de quem criou esse lugar! — O velho pareceu soltar a interjeição em voz alta de propósito. Em nossos estudos antigos, ele me contou sobra a antiga rixa e o preconceito entre nossas duas espécies. Aquilo foi motivo para várias revoltas e até uma arbitrária proibição de porte de varinhas. Achava eu que, com o passar dos anos e com a ajudinha de uns truques de mágica, a querela já tivesse acabado. Mas... não. Pelo menos José se mostrou mais interessado e orgulhoso dada aquela afirmação. Estávamos em uma parte mais tranquila do trajeto, e, graças à velocidade escolhida, ele se permitiu virar todo pescoço para nós. — O “capicious extremis” exige do(a) usuário(a) copiosa destreza em fazer contas. Prever o que pode acontecer não é tarefa fácil. Meus parabéns a quem criou. (9)

     Todos felizes, alegres, despreocupados com a vida em um seguríssimo carro de banco. Até eu mesmo estava curtindo a paisagem. Já tinha tomado o conteúdo de um frasquinho e tinha acabado de abrir outro. E a pastilha que ainda conservava na boca realmente era bem calmante. Ah, e não vamos esquecer do ritmo mais lento que pedi no início. Tudo na santa paz, graças a Deus... (5)

     — Registro bancário e número do cofre, por favor. (1)

     — 624216. Câmara 12. (1)

     Era tudo... bom e lindo demais para continuar naquela paz. Pelo menos, nenhum perigo iminente ou sensação de. Apenas uma normal burocracia bancária. (2)

     — Ah, não se preocupem! — Agora em um corredor mais fechado com estalactites e estalagmites, nosso amigo condutor acabava de me tranquilizar. — Aquele é Krászious Krakówin, duende encarregado de inspecionar movimentações nesta parte reservada do banco. Se passamos por ele, que bom! Quer dizer que somos nós mesmos, e ninguém aqui burlou as regras através de uma poção polissuco ou estratégia qualquer. — É... podia dar muito errado aquilo, por sorte contávamos com a simpatia de José. — E esta decoração denuncia que estamos quase chegando. Agora, é só atravessar a... (7)

     Minhas atenções estariam ainda voltadas para o mau presságio lá detrás... mas preferi fixar-me à alegria do pequeno ser logo ao meu lado. Eleazar Fig, parecendo se despedir do atípico ar abobalhado momentâneo, olhava para cima enquanto fazia uma careta não condizente com a idade e esticava bem os braços. (4)

     Shu’ah...

     — Essa cachoeira é o último procedimento de segurança desse percurso. Ela lava todos os encantamentos e reconforta a alma. A partir daqui, não se pode usar magia. (2)    

     Louvei as mãos ao céu assim como Fig, que claramente não estava louvando aos céus por mais uma viagem em segurança, mas por mim já estava ok. Agradeci o passeio. Desci. Admirei a vista cavernosa. Gostei ainda mais daquele cara! (3)

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