Qual será a música?

 

     O Brasil que eu quero para o presente é um Brasil onde as pessoas se lembrem do que aconteceu no verão passado. Não um Brasil com Z onde entram estrangeirismos, mas um Brasil com S — de brasilidade, de brasilessencial, de brasilossapiente. O primeiro termo, que aparece vez ou outra na Literatura, diz sobre o conjunto de características culturais, históricas, sociais e simbólicas associadas ao nosso país e à nossa gente. Ele resume, pelo harmonioso conjunto de letras e sons, as suas manifestações culturais, modos e jeitos de falar, tradições, diversidade e as infinitas formas de expressão que ajudam a construir a identidade brasileira. Seguindo os passos desta dança, valorizamos as nossas cores locais, preservando o que faz desta nação algo essencial. O som criado por ditas características culturais, históricas, sociais e simbólicas se amplia pelas essências únicas de nosso povo, somando vozes e identidades que, ao longo de nosso desenvolvimento, não convém que sejam silenciadas pelo caminho.

     Entendendo sobre licença poética, brinco com as palavras e crio mais um neologismo, que evidencia a capacidade do brasileiro de pensar, de estudar e posteriormente relacionar fatos, sustentando o tom e a voz para falar sobre algo. <Sapiente> vem do latim sapiens e significa <sábio, aquele que possui conhecimento ou discernimento>. Esta composição autoral une o significante brasileiro ao latino, dando origem a um novo termo que se soma aos anteriormente apresentados e perpetua a ideia em uma inteligente sinfonia. A letra “O” e a duplicação do “S” buscam transmitir similar efeito, talvez seguindo por essa aliteração que o texto propõe, ou ainda reparando no desenho da vogal, o qual retrata um círculo e, por assim dizer, engloba a todos.

     Uma vez que o termo é inventado, qualquer outro caractere poderia ter sido eleito para representar tal função, bem como qualquer outra explicação. Quem sabe encontremos no “I” a tão aguardada solução do problema? Entretanto, sob uma perspectiva semiótica — área que, por minha formação em Letras, acredito ter algum embasamento para falar —, tal escolha poderia trazer somente ideias de “unidade, indivíduo, individual” e não abarcar, em uma simples letra, vozes de “conjunto, coletividade e união”. Claro, nesta lírica dança das palavras não há dados 100% concretos que funcionam para os 100% dos casos, porém informações abundam no passado histórico, e basta observá-lo para ver que são reais.

     Continuando na metáfora da música — ou em qualquer outro conhecimento que você preferir —, existem saberes que são como matérias-primas, foram estudados há séculos e levaram anos de aperfeiçoamento até assumirem sua forma atual. Em partituras e escalas musicais, cada nota possui a sua identidade, ainda que possa sofrer alterações por meio de sustenidos e bemóis; assim como a clave de sol estabelece uma referência para leitura da peça. Voltando à minha alçada, que é o terreno de Letras, percebo que os dois núcleos de minha última frase (o primeiro do objeto e o segundo do complemento) estabelecem uma conexão semântica bastante interessante. O documento que foi promulgado em cinco de outubro de 1988 é uma referência para nós, brasileiros; e, na área do Direito, temos vários tipos de peças: jurídicas, processuais, administrativas, legislativas. Longe de mim querer dar uma aula de Direito Público, mesmo porque isso caracterizaria um desvio de competência, mas... novamente a ideia de que está tudo interligado nos vem à mente. E assuntos já debatidos como coletividade, respeito e um olhar atento para a realidade do outro não param quietos nesta dança de brasilidade.

     Diria que isto é também um saber que funciona como matéria-prima: o fato de estar tudo relacionado! As palavras que usei para iniciar o texto retomam uma campanha — esta mais midiática, porém, não sei se já diluída —, sobre o Brasil que queríamos para o futuro. Achei a ideia válida, relembrou-me inclusive o vídeo que gravei anos atrás e, em um mesmo compasso, fiz algo novo. Tudo muito bom, tudo muito bem! Mas... penso que a introdução ficou muito longa. Palavras claras, alusões bonitas e até artísticas, termos e construções limpas que não ferem nada nem ninguém. O problema, logo, não foi usá-los, mas sim a profusão de assuntos e as voltas que fiz para chegarmos aqui. Respeito o teu posicionamento. Perspectivas diversas e novas soluções são bem-vindas, pois é isso que põe o mundo em desenvolvimento! Todavia, convém que os debates sejam saudáveis e que as ideias não sejam extremistas. Reescrever a história é tentador, mas será que o que vai me beneficiar, em consequência prejudicará o outro? Talvez, por um discurso bonito e promessas atrativas, nem a mim mesmo beneficie.

     Reiterando, uma liberdade de escolha entre direita e esquerda é válida. Ambos os lados trazem benefícios, porém nenhum deles está a salvo de ter pontos que precisam melhorar. O que não se pode admitir é o extremismo! Por exemplo, documentos históricos e anos de pesquisa têm o seu valor, e é prejudicial à sociedade que sejam apagados ou queimados em incêndio. Ainda rondando o tema, também há aquelas “liberdades disfarçadas”, pois não faz sentido defender uma mudança que, amanhã, retire direitos os quais ela mesma promete, hoje, proteger.

     Mas somos pessoas, uai! Nesta saudável busca por soluções, podemos errar, podemos acertar, e caso cheguemos lá longe e descubramos que aquilo não mais nos convém, nós podemos voltar. O que se espera, assim como um bom texto, é que sejamos coerentes com aquilo que acreditamos. E como escritos são criações humanas, que podem ou não conter referências de outras vozes e artes, é importante estar atento às entrelinhas.   

     Sem criar mais regras nesta partitura, olhemos agora para o que está certo, para os anos de desenvolvimento e conquistas da nação brasileira! Um território vasto, que tem estados ricos em cultura e um povo vibrante, acolhedor, resiliente. É do ser humano ansiar por mudanças, e muitas delas podem ser válidas. Porém, isso, por si só, não garante que elas sejam inovadoras, necessárias ou bem formuladas. Devemos pensar, não somente dançar sem questionar discursos de brasilidade.

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